Nove meses após o desaparecimento de Ágatha, de 6 anos, e Allan, de 4, em um povoado quilombola no Maranhão, as buscas foram parcialmente desmobilizadas, mas o paradeiro dos irmãos segue desconhecido. A mãe, Clarice Cardoso, continua à procura de respostas.
Faltavam 50 dias para o início das aulas na única escola de São Sebastião dos Pretos, povoado quilombola de 226 moradores em Bacabal, no interior do Maranhão, a Unidade de Ensino Fuindamental (UEF) Quilombola José Maia Filho. Os irmãos Agatha Isabelly Reis Lago, de seis anos, e Allan Michael Reis Lago, de quatro, e o primo deles, Anderson Kauã Barbosa Reis, de oito, curtiam as férias. Em um local de extrema pobreza e sem nenhuma opção de lazer, brincavam de fazer bonecos com terra. Assim passavam o recesso escolar, até 4 de janeiro. Naquele dia, às 15h, os três desapareceram. O caso romperia os limites do povoado, levaria às buscas agentes das forças de segurança e milhares de voluntários de diferentes partes do país. E ganharia a atenção da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol).

Aos 27 anos, Clarice Cardoso é mãe de Agatha, Allan e André, de nove anos. Os filhos são de relacionamentos anteriores à união que mantém com um homem de 30 anos, que trabalha na montagem de torres de transmissão de energia elétrica. Por causa do serviço, ele passa cerca de três meses fora de casa, antes de retornar por períodos de 15 a 20 dias. Naquele domingo, os dois decidiram aproveitar uma dessas breves temporadas juntos.
No dia dia do desaparecimento, Clarice acordou às 6h, como de costume. Até as 12h, deu café da manhã para as crianças, banho e as deixou aos cuidados da mãe dela, da qual é vizinha. Depois, Clarice e o companheiro subiram na moto e seguiram pela estrada de chão batido rumo à Bacabal, a cerca de 40 minutos dde onde moram.
Primeiro, foram a um sítio de lazer, onde passaram parte da tarde. Depois, seguiram para uma agência bancária, uma farmácia e a rodoviária. Precisavam comprar a passagem de ônibus para o retorno do companheiro ao trabalho. Por volta das 17h, Clarice olhou o celular e encontrou dezenas de ligações e mensagens. Não as percebeu antes por falhas de sinal na região. “Minha mãe e minha sobrinha diziam que os meninos tinham sumido. Voltamos às pressas de moto”, relata.
Quando o casal retornou ao povoado, encontrou uma movimentação nunca antes vista ali. Na porta da casa de Clarice, dezenas de pessoas se concentravam nas buscas pelas crianças. Quem tinha moto, adentrou às estradinhas contornadas por matas e que não comportam veículos de quatro rodas. No fim daquela tarde, o calor extremo de mais cedo deu lugar às fortes chuvas, o que dificultou a procura.
Clarice e o companheiro voltaram à cidade de moto para prestar queixa na Delegacia de Polícia de Bacabal. Não tinha delegado na unidade — apenas um repórter da cidade e um escrivão. “O policial orientou que procurássemos o Corpo de Bombeiros. Não imaginariam toda essa proporção”, desabafou, vestida com uma camiseta branca estampada com a foto dos filhos.
Ações da polícia
À época, o secretário de Segurança Pública, Maurício Martins, afirmou que cães farejadores identificaram a presença das três crianças no barraco e à margem do rio. No dia 17, com a informação do rastro dos irmãos à beira do Mearim, 11 militares da Marinha chegaram em Bacabal para ampliar a força-tarefa. A equipe usou ferramentas de ponta. Entre elas, uma lancha equipada com side scan sonar, tecnologia capaz de gerar imagens detalhadas do leito do rio. O capitão dos Portos do Maranhão, Augusto Simões, explicou, à época, como funcionava o equipamento.




