Na suntuosa mansão com vista para a baía de Biscayne de um dos cirurgiões plásticos de maior prestígio de Miami, nos Estados Unidos, reúnem-se algumas da famílias cubano-americanas mais ricas da Flórida.
Eles estão ali para debater o futuro de Cuba, na quarta reunião da recém-criada Câmara Nacional de Comércio Cubano-Americana (Cancc, na sigla em inglês).
Com um copo de rum na mão e um Rolex no pulso, esta é a velha aristocracia de Miami.
Pessoas com sobrenomes cubano-americanos muito conhecidos, como Bacardí e Babún, conversam em torno da piscina sobre o lamentável estado da economia da ilha e compartilham fofocas sobre os últimos acontecimentos políticos.
“A intenção desta noite é reunir sob o mesmo teto os empresários cubano-americanos mais destacados do condado de Miami-Dade”, explica Juan Omar Sixto, presidente da Cancc.
“O objetivo é estar em Cuba assim que cair o regime”, segundo ele. E seus convidados estão convencidos de que este momento está chegando.

A situação econômica de Cuba se agravou desde o bloqueio americano às importações de petróleo
Esta influente comunidade de exilados cubanos odeia o governo comunista da ilha, desde que o líder revolucionário Fidel Castro (1926-2016) expropriou suas terras e nacionalizou as empresas das suas famílias, ao tomar o poder em Cuba em 1959.
Ao longo dos anos, eles usaram sua influência política e econômica na Flórida para moldar as políticas de Washington em relação ao seu país de origem.

O governo do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, aprovou uma série de medidas para tentar combater a delicada situação econômica da ilha, sem êxito.
Já os magnatas cubanos com gelo tilintando nas bebidas e uma brisa fresca balançando as palmeiras no gramado impecavelmente cuidado, agora membros da Cancc fazem tudo parecer fácil.
Mas, a poucas horas da sua reunião, Cuba mergulhou no seu sexto apagão nacional do ano.
A desconexão entre as esperanças de mudança em Miami e a realidade em Cuba é evidente. Muitos cubanos residentes na Flórida acreditam que a mudança transcendental que eles rezam para ocorrer está a ponto de chegar.
Se isso acontecer, inevitavelmente, haverá enormes transtornos sociais e humanitários que a ilha, já em dificuldades, não está preparada para enfrentar.
Supondo que o apoio da diáspora seja bem intencionado e não puramente egoísta, estima-se que reparar a deficiente rede elétrica da ilha custará entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões a 50 bilhões).
Antes que qualquer indústria em Cuba, da agricultura ao turismo, possa ser revitalizada graças à riqueza e às conexões políticas dos exilados, os cubanos continuam enfrentando uma grave escassez de alimentos, água, combustível e medicamentos.




