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Curiosidade

Achadas 26 pegadas de neandertais com 78 mil anos

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Caminhada por uma praia portuguesa levou um casal de pesquisadores a perceber marcas discretas numa falésia, desencadeando uma investigação que revelou rastros humanos preservados durante dezenas de milhares de anos e movimentos de indivíduos de idades diferentes em uma antiga paisagem costeira.

Durante uma caminhada pela praia de Monte Clérigo, no sul de Portugal, o geólogo Carlos Neto de Carvalho e a geógrafa Yilu Zhang perceberam depressões incomuns numa superfície de areia endurecida, exposta junto a uma falésia parcialmente desabada. Distribuídas pelo terreno inclinado, as marcas lembravam pés humanos e não pareciam resultado da erosão comum, detalhe que levou o casal a registrar o local e buscar uma análise capaz de esclarecer a origem e a antiguidade das impressões.

A observação aconteceu pouco antes do primeiro confinamento provocado pela pandemia, quando as condições de luz favoreceram a visualização dos contornos na rocha, embora a confirmação dependesse de medições, fotografias detalhadas e avaliação conjunta de outros especialistas.

Maré quase bloqueou a saída dos pesquisadores

Mais tarde, ao retornar à praia com colegas e equipamentos fotográficos, Neto de Carvalho enfrentou uma mudança repentina da maré, que quase bloqueou a saída da equipe e transformou o trabalho de campo em uma operação arriscada.

Segundo relato concedido pelo pesquisador ao Live Science, o grupo precisou nadar e escalar uma falésia quase vertical de aproximadamente 15 metros, carregando os materiais usados na documentação das marcas antes que a água impedisse completamente a passagem. Apesar do risco, a expedição reuniu imagens e medições suficientes para revelar a dimensão do sítio, onde foram identificadas pelo menos cinco sequências de passos, além de marcas isoladas, numa superfície de aproximadamente 22 metros quadrados.

Vista do rastro neandertal descoberto na falésia norte da praia de Monte Clérigo, em Portugal, com dois autores do estudo para comparação de escala.
(Crédito da imagem: Carlos Neto de Carvalho

No total, os pesquisadores descreveram 26 pegadas, distribuídas em trajetórias que seguiam por diferentes direções e indicavam a passagem de vários indivíduos sobre uma área que, no passado remoto, integrava um extenso sistema de dunas costeiras.

Pegadas de neandertais foram datadas em 78 mil anos

Para estabelecer a idade das impressões, a equipe aplicou luminescência opticamente estimulada, técnica usada para calcular quando determinados minerais foram expostos à luz pela última vez antes de permanecerem protegidos dentro de uma camada sedimentar.

Os testes situaram as pegadas entre aproximadamente 73 mil e 83 mil anos, faixa apresentada pelos cientistas como 78 mil anos, com margem de cinco mil anos, período anterior à presença estabelecida de humanos modernos naquela parte da Europa.

Somado às características anatômicas das marcas, esse intervalo cronológico sustentou a atribuição aos neandertais, grupo humano que ocupou diferentes regiões europeias durante dezenas de milhares de anos e deixou poucos registros de deslocamento preservados em superfícies abertas.

Rastros pertenciam a um adulto e duas crianças

A partir do comprimento, da largura e da disposição das impressões, os pesquisadores diferenciaram pelo menos três indivíduos, incluindo um adulto do sexo masculino, uma criança com idade estimada entre sete e nove anos e outra com menos de dois.

Nas maiores sequências, as pegadas mediam em média entre 26 e 28 centímetros de comprimento, aparecendo ao longo de trajetórias que subiam e desciam a duna, com alterações na direção e na distância entre os passos.

Como a areia macia dificultava a progressão, alguns pés escorregaram lateralmente ou não aderiram completamente ao solo, produzindo calcanhares borrados, contornos irregulares, sinais de rotação e mudanças bruscas no comprimento das passadas registradas na superfície.

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