TCU aponta ausência total de rastreabilidade nos bilhões injetados pelo Tesouro em empresas que, teoricamente, não precisam de ajuda.
Existe uma categoria curiosa no vocabulário burocrático brasileiro: a estatal “não dependente”. O nome é bonito. Sugere autonomia, eficiência, capacidade de caminhar com as próprias pernas. Na prática, o Tribunal de Contas da União acaba de revelar que essas empresas recebem bilhões do Tesouro Nacional — e ninguém consegue dizer com certeza onde esse dinheiro vai parar. Não é uma acusação. É pior.

É a constatação de que não existem mecanismos para saber se os recursos estão sendo usados de forma legal ou irregular. Não há rastreabilidade. Não há supervisão adequada. Não há distinção entre o que é aporte para investimento e o que pode estar bancando folha de pagamento, cafezinho e ar-condicionado. A pergunta que ninguém faz é simples: se o governo injeta dinheiro em empresas que supostamente se sustentam sozinhas, e não há controle sobre o destino desses valores, por que essas empresas são classificadas como “não dependentes”?
Mas há um detalhe.
O parecer do TCU sobre as contas de Lula referentes a 2025 mostra que, nos últimos 15 anos, a União despejou nas estatais volumes muito superiores à capacidade dessas empresas de executar os projetos para os quais o dinheiro foi, em tese, destinado. O resultado? Saldos bilionários acumulados em caixa e aplicações financeiras, sem nenhuma vinculação com obras ou empreendimentos concretos.
Dinheiro público parado. Sem explicação. Sem prestação de contas.
E é aí que a história complica.
Esse colchão de caixa não apenas esconde o possível desvio de finalidade dos aportes — ele mascara a real situação financeira dessas companhias. O TCU é direto: a falta de controle “infla artificialmente a avaliação de sustentabilidade” das estatais e “compromete a transparência e o controle fiscal”.

