Com o início do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, nesta semana de 19 a 23 de janeiro, a atenção global volta-se para as montanhas nevadas onde líderes políticos e empresariais debatem o futuro do planeta. No entanto, o clima nos corredores do evento é marcado por uma apreensão inédita, refletida na divulgação da 21ª edição do Global Risks Report. O documento pinta um cenário onde a humanidade se equilibra em uma instabilidade perigosa e a cooperação internacional, historicamente celebrada nesse encontro, fragmenta-se sob o peso de uma nova ordem.

“Com base na opinião de mais de 1.300 especialistas, o relatório revela uma mudança drástica nas prioridades: a urgência das disputas geopolíticas e econômicas está perigosamente ofuscando crises existenciais de longo prazo. A atmosfera global descrita é de preocupação, com mais da metade dos líderes antecipando um cenário turbulento ou tempestuoso para a próxima década.
Diferentemente dos anos anteriores, nos quais a recuperação pós-pandemia ainda trazia otimismo, 2026 marca a ascensão do confronto geoeconômico como a principal ameaça imediata. Superando riscos ambientais e sociais no horizonte de dois anos, as nações passaram a utilizar a economia como arma estratégica, resultando em um ciclo vicioso de sanções e protecionismo.
“O relatório descreve um mundo caracterizado pela multipolaridade sem multilateralismo, onde múltiplos polos de poder emergem em um ambiente fragmentado, travando as instituições tradicionais de governança e impedindo o diálogo necessário para gerenciar essa nova volatilidade.
“Uma das descobertas mais alarmantes apresentadas aos delegados em Davos é o paradoxo climático. Embora a realidade física das mudanças climáticas extremas continue agravar-se visivelmente, a atenção política e econômica desviou-se para crises mais imediatas. Houve uma repriorização para baixo dos riscos ambientais no curto prazo, revertendo a tendência dos relatórios de 2024 e 2025.

“O foco no aqui e agora, exigido para apagar incêndios econômicos e geopolíticos, está drenando os recursos vitais para a transição verde. Contudo, essa negligência cria uma armadilha perigosa, pois os riscos ambientais permanecem dominantes no horizonte de dez anos, sugerindo que a inação de hoje, motivada por urgências de curto prazo, pode garantir catástrofes irreversíveis no futuro.
“Diante dessa complexidade, torna-se evidente a necessidade imperativa de adotar uma visão sistêmica, interdependente e interconectada como bússola para a governança. Não há mais espaço para discussões monotemáticas ou isoladas; a ilusão de que podemos resolver a crise climática sem enfrentar a desigualdade social, ou estabilizar a economia global sem considerar as realidades locais, é uma falácia perigosa. Hoje, não se discute transformação digital e transição energética sem considerar as questões geopolíticas.
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