Líbia puxa água das profundezas do Saara e constrói rios artificiais gigantes

Na Líbia, quase todo o território é deserto sem rios permanentes e a chuva some por meses. Para sobreviver, o país explora o aquífero de arenito núbio, água fóssil de até milhões de anos, e a envia por tubulações subterrâneas até Trípoli e Benghazi numa aposta de risco alto contínuo.

A Líbia é uma das nações mais secas do planeta e, ainda assim, guarda sob a areia do Saara um dos maiores tesouros hídricos já encontrados: água doce antiga, presa em camadas profundas de rocha, que virou a base de um projeto gigantesco para sustentar cidades inteiras na costa do Mediterrâneo.

Só que essa solução tem um lado sombrio: é uma água fóssil que não se renova, e o país passou a depender de uma infraestrutura colossal, cara e vulnerável, que pode ser interrompida por falhas, disputa política e guerra, além de deixar marcas ambientais e sociais profundas.

Um país quase sem chuva e sem rios permanentes

O que existem são leitos secos, que só carregam água por poucas horas depois de uma precipitação rara. Em grande parte do país, a precipitação média anual é quase zero. A exceção é uma faixa costeira estreita, com menos de 5% da área nacional, que consegue receber mais de 100 mm de chuva por ano.

Essa geografia empurrou a população para a costa, onde o abastecimento é mais estável. Já o interior se sustenta como dá, em oásis e em pequenas áreas irrigadas. Na prática, água define onde a Líbia consegue existir.

O aquífero de arenito núbio e a água pré-histórica do Saara

O ponto de virada veio quando perfurações profundas no sul do país, inicialmente ligadas à busca por petróleo, encontraram algo ainda mais valioso: água doce em grande volume.

Não se tratava de bolsões pequenos. Era um reservatório gigantesco armazenado em camadas de arenito: o Aquífero de Arenito Núbio, que se estende sob Líbia, Egito, Sudão e Chade, cobrindo uma área superior a 2 milhões de quilômetros quadrados.

As estimativas citadas apontam uma quantidade monumental, na ordem de 39 milhões de trilhões de galões de água. E o detalhe que muda tudo é a idade: essa água se acumulou entre 10.000 e mais de 1 milhão de anos, em um período em que o Saara era mais verde, úmido e cheio de vida.

É por isso que ela é chamada de água fóssil. E aí vem o preço: não é um recurso renovável. O país não está “usando um rio subterrâneo infinito”, está retirando de um estoque antigo que diminui a cada bombeamento. O projeto descrito inclui mais de 13.000 poços perfurados em áreas desérticas, com profundidade em torno de 500 metros, em locais onde a temperatura na superfície pode passar de 45°C.

A água desses poços entra em uma rede de tubos de concreto armado com aço, enterrados para reduzir perdas e proteger o sistema do ambiente extremo. Cada tubo é descrito como extremamente pesado, com dezenas de toneladas, e as conexões usam componentes como juntas de borracha e argamassa de alta resistência para minimizar vazamentos.

O comprimento total do sistema é estimado em mais de 4.000 km, comparável a ligar cidades separadas por distâncias continentais. O volume de materiais também impressiona: o cimento usado para fabricar os tubos é citado como equivalente a 5 milhões de toneladas.

Tudo isso ajuda a entender por que o projeto é visto como maravilha de engenharia e, ao mesmo tempo, como algo frágil. Quanto maior e mais complexo o sistema, mais pontos críticos ele cria.

Share this content:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *